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Quando o destino interfere na contabilidade

Quando o destino interfere na contabilidade

Por Henrique Pinheiro  – Economista e produtor executivo de cinema – colunista convidado.

O Banco Boavista era um banco familiar, como já mencionei.

No início dos anos 90, passou a ser administrado pela terceira geração dos Paula Machado.

Os irmãos Guinle Paula Machado ficaram no conselho consultivo,e Lineu de Paula Machado — o Lineuzinho — assumiu a presidência.

Sangue novo, discurso novo.

Surgia o slogan: “Banco Boavista, novas ideias e antigos ideais .”

A ambição era clara: Crescer.

Uma grande equipe do Bradesco foi capturada pelo Boavista.

A migração em massa deixou feridas abertas no antigo empregador.

Dentro do Boavista, a ordem era acelerar.

Em menos de dois anos, mais de 70 agências foram abertas.

O crédito foi fomentado sem pudor.

A carteira mais que dobrou.

Nos primeiros anos, os números impressionavam.

Jornais especializados no setor exaltavam a transformação do outrora conservador Boavista.

Chegaríamos perto dos grandes — ou assim parecia.

Mas, expansão tem prazo de validade.

Depois de três anos, chegou a hora da colheita.

Ou melhor. A hora de cobrar os empréstimos concedidos.

E, foi aí que o problema apareceu.

A turma do Bradesco sabia emprestar.

Mas, os clientes não sabiam pagar.

A inadimplência cresceu de forma assustadora.

O mercado percebeu rápido. Algo tinha saído do controle.

O banco entrou em dificuldade de liquidez.

O Banco Central pressionou pela venda.

O comprador, curiosamente, já estava escolhido.

Era o Banco Interatlântico. Uma sociedade entre o Banco Espírito Santo, o francês Crédit Agricole e o Grupo Monteiro Aranha.

O Grupo Monteiro Aranha era presidido por Joaquim Monteiro de Carvalho

— o Baby.

O mesmo que, de pijama, ao lado de Jorginho,

assistira à inauguração do Copacabana Palace.

Com a chegada do Interatlântico,

os créditos podres — como diz a gíria bancária —foram baixados a prejuízo.

O empréstimo de Jorge seguiu o mesmo destino.

Assim, ele foi libertado de uma dívida impagável.

Sorte? Acaso?Destino?

Talvez tudo isso junto .

Jorge estava mais leve.

Mas sua situação financeira ainda exigia cautela.

Algumas contas não se resolvem com dinheiro. Outras, apenas com o tempo.