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A Ilusão Monetarista

Luiz Claudio de Almeida 8 de fevereiro de 2026 4 minutes read
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Redes Sociais
           
Por  Henrique Pinheiro  –  Economista e Produtor Executivo de Cinema – Colunista convidado.
      Toda geração acredita ter encontrado a fórmula mágica para domesticar o mercado.
Nos anos 80 eram as letras de câmbio com retornos milagrosos.
Nos anos 2000, a nova economia digital.
Ontem, CDBs turbinados com garantia do Fundo Garantidor de Créditos.
Hoje, criptoativos.
Hoje, Bitcoin.
Hoje, a promessa de enriquecimento instantâneo digitalizado.
A embalagem muda.  A lógica permanece.
A crença de que é possível enriquecer rápido, sem lastro produtivo, vsem
geração real de riqueza,  apenas surfando
 a euforia coletiva.
O Bitcoin tornou-se o símbolo máximo dessa nova corrida.
Não é apenas um ativo. É uma narrativa.
É a promessa de independência do sistema tradicional. É a ideia sedutora de que o código substitui o esforço.
Como em todo ciclo, há ganhos reais para alguns.
Mas há, sobretudo, a expansão da fantasia para muitos.
Taxas acima da média nunca são caridade.
Valorizações vertiginosas nunca são garantia.  São risco disfarçado de oportunidade.
Vivi isso nos anos 80,  quando
 as Letras de Câmbio da Coroa-Brastel pagavam muito acima do mercado
sob o argumento de “novo paradigma”.
O caso do Banco Master não foi surpresa.  Foi roteiro repetido.
Agora, a linguagem é digital.  O discurso é libertário.
Mas o impulso é o mesmo: Ficar rico antes que a música pare.
Há uma outra ilusão, no entanto,
mais sofisticada e mais persistente. A crença de que juros altos resolvem todos os males da economia.
           Meu pai, João Pinheiro Neto — advogado, economista e ministro do Trabalho e da Reforma Agrária no governo João Goulart — enfrentou essa narrativa há mais de seis décadas.
Em 1968, publicou, pela Editora Florense,  o livro Ilusão Monetarista.
O título já era um enfrentamento intelectual.
Ele foi direto: ” Salário não causa inflação.”
A inflação brasileira nunca foi essencialmente de demanda.
O Brasil jamais viveu excesso estrutural de consumo popular. Vivemos,
isso sim, concentração produtiva,
choques de oferta, indexação crônica,
dependência dos preços das commodities — ainda prisioneiros de uma pauta de exportação que lembra o Brasil colônia — e poder de mercado em setores estratégicos.
Ainda assim, a ortodoxia insiste na mesma receita: Crédito caro para frear um consumo que nunca foi o vilão principal.
Transformaram o juro em fetiche moral.
Quanto mais alto, mais virtuoso.
Enquanto isso, fortalece-se o rentismo.
Premia-se o capital improdutivo.
Asfixia-se o investimento produtivo.
E, paralelamente, floresce a cultura da aposta.
Se o juro alto remunera o dinheiro parado,  o Bitcoin  promete multiplicá-lo, rapidamente.
         Ambos alimentam a mesma distorção:
A desconexão entre a  riqueza e o trabalho.
Em Ilusão Monetarista, João Pinheiro Neto fala do “senso do trabalho”.
A ideia simples — e revolucionária — de que riqueza duradoura nasce da produção,  do esforço,  da construção institucional, e não da especulação permanente.
Quando uma sociedade perde o senso do trabalho, passa a celebrar atalhos.
Celebra o banco que promete retornos fáceis,  o ativo digital que sobe em linha reta com uma boa narrativa.
Mas,  nenhuma economia se sustenta apenas em valorização financeira.
Nenhuma sociedade prospera apenas com promessas de riqueza instantânea.
A verdadeira ilusão não está apenas no monetarismo.
Está na crença de que é possível.   substituir trabalho por euforia.
Juros não substituem reforma estrutural. Bitcoin não substitui produtividade. Especulação não substitui desenvolvimento.
Podem gerar ganhos episódicos.Mas não constroem prosperidade coletiva.
Sem o senso do trabalho, resta apenas o ciclo. Euforia, excesso, correção,
esquecimento.
E então, inevitavelmente, a próxima ilusão.

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