
Roteiro Completo une teatro e gastronomia em percursos para prolongar a experiência. A proposta é descobrir lugares próximos — muitas vezes acessíveis a pé — para continuar a conversa depois do espetáculo, entre taças, pratos e impressões ainda borbulhando. Porque alguns prazeres não devem terminar quando as cortinas se fecham.
Uh lálá ! Eu sou minha própria mulher e Amèlie Creperie e Bistrot
Dezoito anos depois de seu enorme sucesso, “Eu Sou Minha Própria Mulher”, de Doug Wright, dirigido por Herson Capri, continua arrebatador ao revelar a potência cênica de Edwin Luisi. O ator transforma o que poderia ser um simples monólogo em um mosaico vibrante de personagens, dando vida a mais de quinze figuras distintas com impressionante precisão vocal, corporal e emocional. Cada presença em cena constrói a trajetória de Charlotte von Mahlsdorf, personagem que atravessa a narrativa como símbolo de resistência, memória e delicadeza diante da brutalidade da história.
A montagem emociona ao abordar LGBTfobia, totalitarismo e sobrevivência sem recorrer ao didatismo. Charlotte, travesti que sobreviveu ao nazismo e ao pós-guerra, encontra na arte e nos objetos antigos uma forma de preservar humanidade em meio ao horror. A direção de Herson Capri aposta na sutileza dos detalhes, conduzindo Edwin Luisi a uma interpretação de rara entrega e sensibilidade. O colar de pérolas de Charlotte transforma-se em símbolo silencioso contra o preconceito, a violência e a morte. Mais do que contar uma história real, a peça prova como o teatro pode transformar memória em resistência e emoção em algo absolutamente universal.
Dizem os franceses que Deus inventou as crepes para salvar as noites de domingo da melancolia — e talvez exista mesmo algo de espiritual nessa simplicidade feita de farinha, leite, manteiga e afeto. Depois da intensidade de “Eu Sou Minha Própria Mulher” e da atuação arrebatadora de Edwin Luisi, seguir para o Amélie Crêperie et Bistrot parece quase um gesto natural. A casa tem aquele clima francês que mistura charme, aconchego e elegância sem esforço: luz baixa, boa conversa, vinhos impecáveis e a sensação deliciosa de que a noite ainda merece durar mais um pouco.
Há mais de uma década, o Amélie transforma crepes e galettes em experiência gastronômica sofisticada sem perder a alma afetiva da cozinha francesa. Os sarrasins — as tradicionais galettes de trigo sarraceno — chegam à mesa com bordas crocantes, centro macio e recheios que equilibram doce e salgado com rara inteligência. A clássica Île Saint-Louis, com brie, presunto de parma, figos confit, mel trufado e nozes, é dessas combinações que fazem silêncio na mesa por alguns segundos. O steak tartare impecável, os drinques delicados e as sobremesas francesas completam um menu que entende perfeitamente o prazer da permanência.
O Amélie não é apenas um restaurante pós-teatro. É continuação da experiência estética. Um lugar onde comida, memória e conversa se encontram com a mesma delicadeza vista no palco. Entre uma taça de vinho e uma crepe compartilhada, a noite ganha aquele raro acabamento francês: leveza, inteligência e um pequeno sentimento de felicidade difícil de explicar — mas muito fácil de sentir.
Serviço:
SERVIÇO:
Eu sou minha própria mulher
Teatro Vannucci
Sábados e domingos às 19:30
Amélie crêperie e bistrot
Shopping da Gávea – loja 223





