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Nossa Senhora Aparecida, olhai pelos nossos juros

Nossa Senhora Aparecida, olhai pelos nossos juros

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Por Henrique Pinheiro –  Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista  convidado. 
 O Brasil tem uma capacidade extraordinária de conviver com o absurdo até transformá-lo em normalidade.
 Até Nossa Senhora Aparecida entrou no debate político.
 Mas há um assunto que quase não aparece: os juros da dívida pública.
 Estamos falando de mais de R$ 1 trilhão em doze meses.
 Quando se fala em educação, saúde, saneamento ou infraestrutura, cada bilhão precisa ser disputado no Orçamento. Quando se fala em juros, naturalizamos o trilhão.
 É preciso entender essa conta.
 O resultado primário mostra, de maneira simplificada, a diferença entre aquilo que o setor público arrecada e aquilo que gasta, sem considerar os juros da dívida. Quando incluímos os juros, chegamos ao resultado nominal.
 É a conta completa. O déficit nominal acumulado em doze meses está na casa de R$ 1,2 trilhão. Mais de R$ 1 trilhão corresponde à conta dos juros.
 Isso não pode ser tratado como um detalhe contábil. Em 2025, a União gastou R$ 129,9 bilhões com manutenção e desenvolvimento do ensino e R$ 234,5 bilhões com ações e serviços públicos de saúde. Somados, R$ 364,4 bilhões.
 No mesmo ano, as seleções do Novo PAC destinadas ao saneamento básico chegaram a R$ 22,1 bilhões.
 Evidentemente, não são despesas diretamente comparáveis. Não estou propondo deixar de pagar os juros e simplesmente transferir esse dinheiro para escolas, hospitais e redes de esgoto.
 Dívidas precisam ser honradas.
 Mas a diferença de grandeza nos obriga a perguntar: como um país com tantas necessidades básicas ainda não atendidas pode considerar normal gastar mais de R$ 1 trilhão por ano com juros?
 É preciso chamar as coisas pelo nome. O Brasil tornou-se um país extraordinariamente favorável ao rentismo.
 Trabalho no mercado financeiro há mais de quatro décadas. Vivi crises, planos econômicos, períodos de inflação e diferentes ciclos de juros. Conheço por dentro a importância dos bancos, do crédito, do mercado de capitais e da estabilidade monetária.
 Por isso mesmo, minha crítica ao rentismo não nasce de preconceito contra o mercado. Nasce da experiência.
 Sei que a inflação destrói renda, principalmente dos mais pobres. Sei também que um país que perde credibilidade fiscal paga mais caro para se financiar.
 Mas justamente por conhecer esse mercado, recuso a ideia de que juros reais persistentemente elevados devam ser aceitos como um fenômeno da natureza.
 Não são. Têm causas, consequências e beneficiários. Os juros da dívida não vão apenas para os bancos. Remuneram fundos de investimento e de previdência, seguradoras, empresas, investidores individuais, estrangeiros e instituições financeiras.
 Mas permanece uma realidade incômoda: uma parcela gigantesca de recursos é destinada à remuneração dos detentores de ativos financeiros.
 Quanto mais atraente a renda financeira, menor o incentivo para assumir o risco da produção.
 Por que investir numa fábrica, comprar máquinas, contratar trabalhadores, enfrentar impostos, burocracia e concorrência quando é possível obter elevada remuneração em ativos financeiros de risco muito menor?
 Não é uma discussão contra o mercado. É uma discussão sobre que mercado queremos.
 Um mercado que financia a produção, a inovação, o emprego e o crescimento?
 Ou uma economia em que o próprio Estado se transforma numa extraordinária fonte de remuneração do capital?
 O Brasil precisa melhorar sua educação, ampliar e modernizar hospitais, universalizar o saneamento, construir infraestrutura, investir em ciência e tecnologia e aumentar sua produtividade. Precisa crescer. Enquanto isso, criamos um círculo perverso: o desequilíbrio fiscal pressiona a dívida; a dívida aumenta a percepção de risco; o risco ajuda a manter elevados os juros exigidos para financiar o Estado; os juros aumentam o custo da própria dívida; e esse custo piora novamente as contas públicas.
 A escola espera. O hospital espera. O saneamento espera. A infraestrutura espera. Mas a conta financeira não espera.
 Não defendo calote nem juros determinados por decreto. Tampouco absolvo qualquer governo da obrigação de controlar gastos, combater desperdícios, melhorar a eficiência do Estado e buscar equilíbrio fiscal.
 Responsabilidade fiscal é indispensável.
 Mas responsabilidade fiscal significa discutir todas as grandes contas do país. Inclusive esta.
 Não podemos colocar uma lupa sobre cada real destinado às políticas públicas e tratar mais de R$ 1 trilhão em juros como uma realidade sobre a qual a sociedade não deve fazer perguntas.
 Estamos às vésperas de escolher novamente o presidente da República.
 Fala-se dos presidenciáveis. Fala-se do STF. Fala-se dos escândalos.
 E, agora, fala-se até de Nossa Senhora Aparecida.
 Mas quem está discutindo seriamente o custo dos juros?
 Quem está perguntando aos candidatos como pretendem romper esse círculo?
 Quem está discutindo por que o dinheiro custa tanto no Brasil?
 Será apenas coincidência que discutamos quase tudo, menos aquilo que toca alguns dos interesses econômicos mais poderosos do país?
 Ou será uma conveniente cortina de fumaça? Não sei. Sei apenas que um país com tanto por fazer não pode aceitar passivamente uma transferência de recursos dessa magnitude para a renda financeira. O Brasil não pode continuar sendo o paraíso do rentismo e, ao mesmo tempo, o país da escola precária, do hospital insuficiente e do esgoto a céu aberto. Diante de tanto silêncio, resta-me terminar com um pedido: Nossa Senhora Aparecida, olhai pelos nossos juros.
 E, se possível, pelo Brasil também.