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Quem terá coragem de revolucionar a Educação?

Quem terá coragem de revolucionar a Educação?

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Por Henrique Pinheiro –  Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.

Há 120 anos, quando o Brasil era predominantemente rural e grande parte da população não sabia ler nem escrever, já existiam homens públicos que compreendiam a educação como condição indispensável ao desenvolvimento nacional.
Em 1906, João Pinheiro da Silva, então presidente de Minas Gerais, promoveu uma importante reforma do ensino público.
Naquela época, predominavam as escolas isoladas, onde crianças de diferentes idades e níveis de aprendizagem estudavam juntas. João Pinheiro implantou os grupos escolares, organizando o ensino em séries e valorizando a formação profissional.
João Pinheiro era meu bisavô. Impressiona-me perceber que, há 120 anos, ele já compreendia que não haveria desenvolvimento econômico e social sem educação.
Décadas depois, Anísio Teixeira criou, na Bahia, a Escola-Parque, oferecendo educação integral, cultura, esporte e oportunidades às crianças pobres.
Paulo Freire revolucionou a alfabetização, relacionando o aprendizado à realidade social dos alunos.
João Goulart compreendeu aquela proposta. Em janeiro de 1964, instituiu o Programa Nacional de Alfabetização, baseado no método Paulo Freire. O golpe militar interrompeu o projeto poucos meses depois.
Duas décadas mais tarde, Darcy Ribeiro e Leonel Brizola retomaram o sonho da educação integral.
Nasceram os CIEPs, projetados por Oscar Niemeyer, oferecendo alimentação, assistência médica, esporte e cultura. Brizola construiu 506 unidades durante seus dois governos no Rio de Janeiro.
Não eram simplesmente escolas. Representavam uma concepção de sociedade na qual a criança pobre deveria receber oportunidades semelhantes às dos filhos das famílias mais favorecidas.
A oposição foi intensa. Lembro-me de Fernando Henrique Cardoso questionando os custos dos CIEPs num debate presidencial.
Brizola respondia aos que consideravam a educação cara:
” Caro mesmo é a ignorância.”
Hoje, muitos CIEPs estão descaracterizados, outros foram abandonados. A descontinuidade política comprometeu uma experiência transformadora.
É justo reconhecer avanços posteriores. Os governos Lula ampliaram as universidades federais, criaram institutos federais e expandiram programas de acesso ao ensino superior, como o ProUni e o FIES.
Mas ampliar o acesso à universidade não resolve, isoladamente, as deficiências da educação básica.
Como formar engenheiros, pesquisadores e profissionais qualificados sem uma sólida formação fundamental? Como reindustrializar o Brasil, aumentar a produtividade e reduzir desigualdades sem revolucionar a educação?
Há ainda uma questão fundamental: nossas prioridades econômicas.
O Brasil compromete mais de R$ 1,1 trilhão anualmente com juros nominais da dívida pública, enquanto o orçamento federal da educação representa uma fração desse montante.
Embora sejam grandezas distintas, a comparação revela o enorme peso dos juros nas finanças nacionais.
Não se trata de simplesmente deixar de pagar juros, mas de enfrentar os problemas estruturais da dívida e construir uma política econômica que permita investir no futuro.
Uma revolução educacional exige professores valorizados, escolas equipadas, ensino integral, tecnologia e continuidade administrativa. Uma escola pública de excelência não acabaria com o ensino privado. Apenas permitiria que a qualidade da educação deixasse de depender da renda dos pais.
João Pinheiro organizou. Anísio Teixeira idealizou a escola integral. Paulo Freire revolucionou a alfabetização. Jango tentou nacionalizar a experiência. Darcy formulou. Brizola construiu. O que faltou foi continuidade. Qual dos candidatos à Presidência apresentará um projeto concreto para transformar a educação numa verdadeira prioridade nacional?
Há 120 anos, meu bisavô compreendeu que não haveria desenvolvimento sem educação. Quantas gerações ainda precisaremos sacrificar para compreender a mesma coisa?