Flávio meteu o pé
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Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
Flávio Bolsonaro perdeu a eleição presidencial de domingo e já desembarcou em Miami, nos Estados Unidos.
De acordo com as reportagens, atravessou a fronteira argentina, embarcou em um avião particular e chegou à Flórida na manhã desta quarta-feira.
Tudo isso, depois de descumprir, conforme noticiado, uma determinação do ministro Alexandre de Moraes para entregar seus passaportes à Polícia Federal.
Perdeu a eleição e meteu o pé!
Segundo a imprensa, a viagem teria contado com a colaboração de autoridades argentinas e com o apoio do governo de Donald Trump.
Agora, setores do bolsonarismo procuram apresentar Flávio como um perseguido político, merecedor de asilo nos Estados Unidos.
Mas perseguido por quem?
Pela Justiça de um país onde disputou livremente a Presidência da República, participou de debates e recebeu milhões de votos?
Flávio Bolsonaro é citado em investigações que envolvem suspeitas de lavagem de dinheiro, movimentações financeiras e o financiamento milionário do filme Dark Horse, sobre seu pai, Jair Bolsonaro.
A Polícia Federal procura esclarecer a origem e o destino desses recursos. As suspeitas precisam ser investigadas, respeitando-se o direito de defesa e a presunção de inocência.
Mas, responder a investigações não transforma, automaticamente, ninguém em perseguido político.
É preciso ter cuidado com as palavras. E, sobretudo, com a memória histórica.
Em 1964, João Goulart foi derrubado por um golpe militar.
Meu pai, João Pinheiro Neto, presidia a Superintendência de Política Agrária (SUPRA), órgão responsável pela execução da reforma agrária.
Depois do golpe, diante da ameaça de prisão, houve um aceno da Embaixada do Chile para que procurasse o exílio.
Meu pai recusou.
Lembro-me de uma frase que João Pinheiro Neto repetia com absoluta convicção:
“Não saio do Brasil. Não fiz nada para ser preso.”
Mas foi preso.
Passou seis meses entre o Forte de Copacabana e a Fortaleza de Santa Cruz. Foi cassado, afastado da vida pública e submetido a investigações por supostas atividades subversivas.
Enfrentou tudo isso sem fugir.
E, provou sua inocência.
Em maio de 1965, em pleno regime ditatorial, foi absolvido pela Justiça, com a defesa do advogado Sobral Pinto.
Meu pai teve a oportunidade de procurar proteção no exterior, mas preferiu permanecer no Brasil e enfrentar seus acusadores, mesmo quando as instituições democráticas haviam sido destruídas.
Milhares de brasileiros não tiveram a mesma possibilidade. Foram presos, torturados, cassados ou obrigados a procurar refúgio em outros países.
João Goulart morreu no exílio, em 1976, sem jamais ter recuperado o direito de governar o país cuja Presidência assumira constitucionalmente.
É por isso que considero tão grave a tentativa de transformar a saída de Flávio Bolsonaro em uma história de perseguição política.
Não se pode colocar as vítimas de uma ditadura no mesmo plano de um candidato derrotado que deixou o Brasil diante de investigações judiciais.
O asilo político é uma proteção contra perseguições, não um salvo-conduto automático para escapar de investigações criminais.
Há, ainda, uma ironia histórica.
Em 1955, a velha UDN tentou impedir a posse de Juscelino Kubitschek e João Goulart, eleitos democraticamente.
Em 1964, participou da articulação que derrubou Jango.
Agora, setores da direita brasileira novamente demonstram enorme dificuldade em aceitar uma derrota eleitoral.
A diferença é que, dessa vez, o candidato derrotado resolveu abandonar o país.
Donald Trump pode receber Flávio Bolsonaro. Pode, até, manifestar disposição de conceder-lhe asilo.
Mas, a proteção de um governo estrangeiro não transforma automaticamente um investigado em perseguido político.
Meu pai enfrentou uma ditadura e não fugiu. Flávio Bolsonaro, segundo as notícias, deixou um país democrático depois de perder uma eleição.
São histórias muito diferentes.
Quem foge de uma ditadura procura liberdade. Quem deixa uma democracia para escapar de uma ordem judicial precisa explicar à sociedade o que está procurando.
A democracia garante o direito de fazer oposição.
Não concede a ninguém o direito de se colocar acima da lei.
Meu pai dizia que não fugiria porque nada havia feito para merecer a prisão.
Foi preso. Enfrentou a ditadura. E provou sua inocência.
Não precisou fugir para provar que era inocente.
Foto (Acervo pessoal) Recorte de jornal, em 1965.


