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Barão de Itararé e suas manhas

Luiz Claudio de Almeida 7 de fevereiro de 2024 8 minutes read
BarodeItararcomManoelBandeiraeoutroamigo
Redes Sociais
           

   Revolução de 1930. As forças políticas reunidas em torno da chamada Aliança Liberal se sublevaram, sob a liderança de um baixinho gaúcho invocado chamado Getúlio Vargas. Uma grande batalha estava prometida e deveria ocorrer em Itararé. Mas não houve batalha nenhuma, pois o presidente Washington Luís fora deposto por seus próprios auxiliares, bem à moda brasileira. Foi o bastante para outro baixinho gaúcho invocado, diretor de um combativo e debochado jornaleco de humor, autoproclamar-se Duque da batalha que não aconteceu, “pelos relevantes serviços prestados no front”. Modesto, o aloprado jornalista rebaixou depois o título para Barão de Itararé.

     O jornal era A Manha e seu diretor o humorista, frasista, poeta, político e sacana inveterado Aparício Torelly, que também assinava Aporelly.

     Nosso herói nasceu no dia 29 de janeiro de 1895 e foi batizado com o pomposo nome de Fernando Aparício Brinkerhoff Torelly, em São Leopoldo, Rio Grande do Sul. Era filho de uma índia charrua que sentiu as contrações durante uma viagem de carroça pelo interior do estado.

     “De repente, a carroça quebrou e eu resolvi botar a cabeça para fora pra ver o que estava acontecendo.” Foi sua primeira gracinha. Antes de deixar os pampas para tentar a vida no Rio de Janeiro, onde descobriu sua verdadeira vocação, Aparício cursou períodos na Faculdade de Medicina de Porto Alegre. Desta época já despontam alguns exemplos do seu humor rápido e mordaz. Durante uma prova oral, o seriíssimo professor de anatomia fez a pergunta:

  • Quantos rins nós temos?
  • Quatro – respondeu o aluno.
  • Quatro? O senhor está maluco?
  • Dois meus e dois seus. Isto se o senhor for um indivíduo normal.

Durante outra argüição, ouviu o mestre irritado com suas respostas cretinas berrar para o bedel:

  • Traz aí um pouco de alfafa!

A reação brilhante do Barão:

  • E para mim, um cafezinho.

Depois de publicar alguns poemas cínicos e satíricos nos jornais e

revistas de Porto Alegre, reunindo-os em seguida no livro Pontas de Cigarro, Aparício arrumou as malas e se mandou para o Rio de Janeiro, onde desembarcou aos 21 anos de idade e com o endereço do jornal O Globo no bolso. Procurou o diretor do jornal, Irineu Marinho, e avisou que era o profissional que O Globo estava precisando.

  • O que o senhor sabe fazer? – perguntou Irineu.
  • Tudo. Desde varrer a redação até dirigir o jornal.

Diante do espanto causado, provocou:

  • Mesmo porque, não há muita diferença entre uma atividade e outra.

Mostrou algumas crônicas humorísticas e foi contratado imediatamente.

A primeira dessas crônicas foi publicada já no dia seguinte, assinada, na primeira página.

Estava bom, mas era pouco. O Barão queria e merecia muito mais. Em 1926, lançou seu próprio jornal semanal, A Manha, pequena sacanagem em cima do matutino A Manhã, um dos jornais mais influentes da época. Bem abaixo do logotipo, a frase explicativa: “Quem não chora, não mama”. A redação ficava na Rua 13 de Maio, onde tempos depois, prisões depois e pescoções depois o Barão de Itararé afixou uma placa destinada aos policiais que freqüentemente visitavam a redação e seu responsável: 

ENTRE SEM BATER!

     O lançamento do jornal A Manha – onde dirigiu, colaborou sob diversos pseudônimos, escrevendo o material editorial inteiramente sozinho – veio a comprovar a imensa capacidade de trabalho e a imaginação fértil de Aparício Torelly. Era “um self-made-man, feito por si próprio, pois se fosse esperar por essa canalha que aí está jamais o seria”, explicava ele, quase sempre sorridente. “Desse senhor Barão de Itararé, de seu riso claro e irresistível, nasceram os atuais humoristas brasileiros, os que desenham, os que escrevem, os que desenham e escrevem”, afirmou Jorge Amado, em 1985, em texto para o livro Máximas e Minas do Barão de Itararé, edição da Agência MPM e Editora Record.

     “O Estado Novo é o estado a que chegamos”, foi como Aporelly definiu a situação de desmandos, pressões e prisões do período mais sombrio do governo Vargas. “Sua palavra, revestida de coragem exemplar e de doce humildade, estava sempre a serviço das mudanças, vale dizer, da esperança, o que fazia dessa palavra um surto permanente de sorriso, e de riso, pois que (malgrado tudo!) de esperança. Pois até o fim Aporelly não descreu que o mal residia necessariamente no social de nossa vida de classes antagônicas”, escreveu o acadêmico e filósofo Antonio Houaiss, em 1986, nas páginas de As Duas Vidas de Aparício Torelly – o Barão de Itararé, livro do jornalista Cláudio Figueiredo. A Manha, autocaracterizada como “hebdomadário’, fazia basicamente um humor político, concentrando suas baterias sobre os figurões da República. “O então Presidente Washington Luís foi transformado em redator-chefe de A Manha e aparecia em todos os números, assinando longos bestialógicos (era o Vaz Antão Luís, nosso companheiro que acumula as funções de Presidente da República)”, segundo informações do filósofo Leandro Konder, em pequena biografia do Barão produzida em 1983 para a Editora Brasiliense. E mais: “impressionado com a cuidada elegância das botinas lustrosas do tristonho ministro Félix Pacheco, Aporelly apelidou-o de Infélix Pé Chic”.

      A Manha resistiu até o começo da década de 1930. O Barão assinou colaborações em alguns jornais e em 1934 tentou dirigir um veículo “sério”, o Jornal do Povo. Carregou nas tintas políticas e recebeu logo o troco: foi seqüestrado e espancado por oficiais da Marinha, influenciados pelos integralistas. No ano seguinte relançou A Manha, quando colocou na porta o famoso letreiro “Entre sem bater”. Não adiantou. 

     Entraram, bateram muito e ainda carregaram o Barão para o presídio da Ilha Grande, onde puxou um ano e meio de cadeia. Lá conheceu quase todos os membros do Partido Comunista e também o escritor Graciliano Ramos, vindo a tornar-se depois personagem do antológico Memórias do Cárcere.

     Durante o interrogatório, travou o seguinte diálogo com o oficial de plantão na Vila Militar: 

    • Nome?
    • Aparício Torelly.
  • Sabe ler e escrever?
  • Sim.
  • Profissão?
  • Jornalista
  • Participa do movimento?
  • Sim.
  • Pode dar mais detalhes?
  • Participo do movimento como o senhor também participa. Afinal, como prova a física, tudo no mundo é movimento.

     Saindo da cadeia, em 1937, o incansável Barão tentou mais uma vez colocar A Manha nas bancas. Foi “aconselhado” pela ditadura do Estado Novo a desistir do projeto suicida. Só em 1945, com a abertura política, conseguiu relançar o jornal. Mais uma vez foi um sucesso, tanto que dois anos depois seu diretor foi eleito vereador da então capital da República pelo momentaneamente “legal” Partido Comunista Brasileiro, o Partidão. Na ocasião, denunciava-se na imprensa a ação criminosa de alguns comerciantes que estavam “batizando” o leite (misturando com água para aumentar a quantidade). Aporelly pegou o mote e fez sua campanha vitoriosa com o seguinte slogan:

     “Mais água e mais leite. Mas menos água no leite.”

     Não conseguindo mais manter o seu jornal, por falta de dinheiro e saúde (já tinha sido vítima de dois derrames), Aparício Torelly publicou três Almanaques dA Manha, entre 1949 e 1955. O terceiro volume destas obras foi relançado em 1995, pela editora paulista Studioma, como parte das comemorações do centenário do humorista. Doente e desanimado, Aparício praticamente se trancou em seu pequeno apartamento na Praça São Salvador, no Rio de Janeiro, para estudar matemática e dedicar-se a uma ciência nova que ele chamava de Biônica – relacionando a biologia à eletrônica.

     Aporelly viveu sozinho os seus últimos anos de vida: o pai do filósofo Leandro, o escritor Valério Konder, fora amigo pessoal do Barão. E contou que certa vez, ao atravessarem juntos a Avenida Rio Branco, o humorista enxergou um ônibus que se aproximava e advertiu: “Cuidado, Valério. Aquele ali já nos viu”. A doença deixara o Barão medroso e assustado. Noutra ocasião, tendo que escapar de um carro que quase o atropelou, comentou com amigos: “Era um belo carro. No mínimo, cento e vinte cavalos, sem contar o que estava no volante”.

     Afastou-se do humorismo profissional, mas não deixou de praticá-lo no dia-a-dia até o fim da vida. Autor da máxima “o que se leva dessa vida é a vida que a gente leva”, Aparício Torelly conseguia fazer piada com qualquer assunto. Já nas últimas, respondeu à pergunta do médico se estava se alimentando com os cuidados que sua saúde exigia: 

     – Minha alimentação é frugal, doutor, consta só de dois pratos. Um fundo e outro raso.

          Morreu no dia 27 de novembro de 1971, em seu apartamento na Praça São Salvador, no Rio de Janeiro. Um dia, naturalmente, nublado e sem graça nenhuma.

 

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