Foto Cristina Granato
Realizou quatro apresentações nos dias 01 e 02 de agosto o musical “Tarsila, a Brasileira” no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
A realização é da Raia Produções.
O musical é uma super produção, com figurinos requintados, cenografia sofisticada, e músicas de qualidade.
O texto de Anna Toledo e José Possi Neto é musical; cultural; biográfico; linear; histórico; poético; emocionante; uma celebração; memorialístico; oscila momentos de alegria com aqueles de tom trágico; valoriza o protagonismo feminino no movimento modernista; contemporâneo.
O texto reconstrói a trajetória da artista Tarsila do Amaral e a sua inserção no movimento modernista de 1922, A partir da sua vinda da Escola de Artes de Paris, momento em que se dá o seu encontro com o grupo dos artistas que incluía Oswald de Andrade, Mario de Andrade, Anita Mafalti, e Menotti Del Picchia. Juntos, eles discutiram a maneira como o Brasil deveria se inserir no rol das nações civilizadas, bem como refletiram sobre a brasilidade e o processo de construção da identidade nacional.
O texto sublinha o protagonismo de Tarsila, uma voz feminina, mulher empoderada, rica, artista competente e de qualidade. Filha das fazendas e do café, ela teve uma vida opulenta e todas as oportunidades que uma artista precisa para conseguir prestígio e reconhecimento. Contudo, sua vida foi marcada também por dissabores, como traições conjugais, divórcios, a queda da bolsa de New York de 1929 e a ruína da economia cafeeira, fato que atingiu sua família, foi presa acusada de rebelião comunista, a morte dos integrantes do grupo dos modernistas, e a perda da sua única filha e de sua neta. Portanto, uma vida de glamour e tragédias.
A atriz Claudia Raia protagoniza a artista Tarsila do Amaral. Ela tem uma atuação notável e merecedora de elogios. Ela interpreta de forma refinada, canta, dança, se movimenta intensamente, e emociona. Faz uma Tarsila forte, potente, destemida, que enfrentou a vida de cabeça erguida, uma líder.
Jarbas Homem de Mello no papel de Oswald de Andrade também tem uma potente e competente atuação, fazendo um modernista que se aproxima e se casa com Tarsila, passando a desfrutar do seu mundo. Da união dos dois triunfou o movimento antropofágico, na criação do Abaporu, ponto máximo da colaboração artística da dupla. Mas ele a trai em sua própria residência com a jovem Pagu, levando a artista ao sofrimento.
Complementam o grupo dos cinco modernistas, Keila Bueno que faz a inquieta Anita Malfatti; o excêntrico Mário de Andrade é interpretado por Renato Caetano; e Menotti Del Picchia por Ivan Parente. Eles também têm atuações de qualidade e convincentes.
Além deles, completam o elenco de 21 (vinte e um) atores-cantores: Liane Maya, Caru Truzzi, Matheus Paiva, Renato Bellini, Danilo Barbieri, Fernanda Salla, Dion Seabra, Marcos Lanza, Marilice Cosenza, Alvinho de Pádua, Karine Bonifácio, Larissa Grajauskas, Estêvão Souz, Maysa Mundim, Fernanda Godoy e Guilherme Pereira. Eles mantêm o nível de qualidade do elenco, com vozes potentes e afinadas.
A direção musical de Guilherme Terra é competente, sendo o musical integrado por canções com letras estruturadas, apresentando um conteúdo que contribui para o entendimento do texto, e melodias com uma sonoridade poética. As letras são criações do próprio Guilherme em parceria com Tony Lucchesi.
Alonso Barros é o responsável pela coreografia e direção de movimento, dando todo um dinamismo ao musical, com criações coreográficas bem solucionadas, adequadas ás cenas e ás músicas.
Os figurinos criados por Fábio Namatame são criativos, de bom gosto, colorido bonito, boa combinação de cores, e facilitam a movimentação dos atores.
A cenografia criada por Renato Theobaldo é adequada, original, clean, e apresenta uma boa distribuição pelo palco.
A Cenografia Digital criada por Gabriel Dietrich constituída por telões e projeções auxilia na narrativa da dramaturgia, e apresenta imagens bonitas, coloridas e bem solucionadas. A projeção da reprodução das telas de Tarsila foi bem realizada.
A iluminação de Wagner Freire apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação dos atores-cantores. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo, dinamismo e complementando as falas e canções.
Em nosso ponto de vista há dois momentos de ápice do musical: a cena em que eles dão um rolé num automóvel dos anos 1920; e a cena em que Tarsila anuncia a confecção do quadro Abaporu.
Tarsila, a Brasileira é um musical que une arte, história e emoção; apresenta um elenco com uma atuação impecável e de qualidade; cenografia e figurinos de bom gosto e criativos.
Excelente produção cênica!






