
Por Henrique Pinheiro – Economista e produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza o livro “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades”.
Os mais recentes resultados do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) reacenderam o debate sobre a qualidade do ensino no Brasil. Criado em 2007, o Ideb é o principal indicador da educação brasileira. Ele combina dois fatores: o desempenho dos alunos em avaliações nacionais de Português e Matemática e as taxas de aprovação escolar. Em outras palavras, procura medir não apenas se o estudante passa de ano, mas também se está aprendendo.
Os números mostram uma recuperação em relação à última avaliação. É uma boa notícia. Mas basta olhar com atenção para perceber que o maior desafio continua sendo o ensino médio.
Milhões de jovens concluem essa etapa sem dominar plenamente a leitura, a escrita e a matemática, justamente as ferramentas indispensáveis para exercer a cidadania, ingressar no mercado de trabalho e contribuir para o desenvolvimento do país.
Os problemas são conhecidos: baixa aprendizagem, evasão escolar, desinteresse dos alunos e profundas desigualdades entre os sistemas de ensino.
Mas talvez a pergunta mais importante seja outra.
Quando o Brasil deixou de tratar a educação como um verdadeiro projeto de nação?
Houve um tempo em que esse tema ocupava o centro do debate nacional. Não era apenas uma política pública. Era um projeto de país.
Anísio Teixeira (1900–1971) foi um dos maiores formuladores desse ideal. Defendia uma escola pública, gratuita, laica e de tempo integral, capaz de oferecer igualdade de oportunidades a todas as crianças, independentemente de sua origem social. Para ele, democracia e educação eram inseparáveis. Uma sociedade livre só poderia existir sobre os alicerces de uma educação pública de qualidade. Sua morte, em 1971, durante a ditadura militar, permanece cercada de dúvidas e ainda desperta debates entre historiadores.
Décadas depois, Darcy Ribeiro (1922–1997) retomou esse sonho. Antropólogo, educador, senador e um dos mais brilhantes intelectuais brasileiros, acreditava que o atraso educacional não era fruto da incapacidade do povo, mas da ausência de prioridade política. Sua frase tornou-se um alerta que atravessou gerações: “A crise da educação no Brasil não é uma crise. É um projeto.”
Ao lado de Leonel Brizola (1922–2004), Darcy procurou transformar essas ideias em realidade. Nos dois governos de Brizola no Estado do Rio de Janeiro nasceram os Centros Integrados de Educação Pública, os CIEPs. Muito mais do que escolas, eram espaços de formação integral, oferecendo ensino, alimentação, atividades culturais, esportivas e atendimento à saúde. A proposta era ousada: colocar a criança no centro da política pública.
O projeto enfrentou resistências, sofreu críticas e acabou sendo interrompido antes que seus resultados pudessem ser plenamente consolidados. Como tantas iniciativas brasileiras, tornou-se vítima da descontinuidade administrativa e das mudanças de governo.
Hoje discutimos índices, rankings e metas. Tudo isso é importante. Mas indicadores, por si só, não educam ninguém.
Educação exige continuidade, planejamento e compromisso com as próximas gerações. Não produz resultados em quatro anos. É uma construção que atravessa décadas.
Talvez os números do Ideb sirvam para algo maior do que medir o desempenho das escolas. Ou, sirvam para nos lembrar que o Brasil já sonhou mais alto.
Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e Leonel Brizola tinham diferenças de formação, de trajetória e de estilo. Mas compartilhavam uma convicção que permanece atual: nenhuma nação se torna desenvolvida sem colocar a educação no centro do seu projeto nacional.
Talvez essa seja a principal lição que ainda temos a aprender.






