
Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades”.
Juscelino Kubitschek venceu a eleição presidencial de 1955. Mas há um detalhe daquela eleição que ajuda a compreender boa parte da instabilidade política que o Brasil viveria nos anos seguintes.
João Goulart, eleito vice-presidente, recebeu mais votos que JK.
Naquela época, presidente e vice-presidente eram escolhidos separadamente. O eleitor podia votar em candidatos de chapas diferentes.
JK recebeu 3.077.411 votos, 35,68% dos votos válidos. Jango recebeu 3.591.409, 44,25%.
Foram mais de meio milhão de votos a mais.
O número não é apenas uma curiosidade eleitoral. Ele revela a força de um projeto político que muitos imaginavam ter terminado com a morte de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954.
JK, do PSD, era um político desenvolvimentista, habilidoso e conciliador. Defendia a industrialização e a modernização acelerada do país.
Jango representava outra coisa.
Ex-ministro do Trabalho de Getúlio, presidente nacional do PTB e político com forte ligação com o movimento sindical, carregava consigo a herança do trabalhismo varguista.
Getúlio havia morrido.
O getulismo, não.
As urnas de 1955 deixaram isso evidente.
Jango recebeu quase 45% dos votos válidos para vice-presidente. Era uma demonstração extraordinária de força eleitoral.
Para setores conservadores, parte da imprensa e segmentos das Forças Armadas, aquela votação tinha um significado político que ultrapassava a figura do próprio Jango.
O trabalhismo continuava vivo. E continuava popular.
A eleição ocorreu pouco mais de um ano depois do suicídio de Getúlio, num país ainda profundamente marcado pela crise de 1954.
A oposição tentou impedir a posse de JK argumentando, entre outras coisas, que ele não havia conquistado maioria absoluta dos votos.
A Constituição de 1946, entretanto, não exigia maioria absoluta para a eleição presidencial.
A tensão aumentou depois que Café Filho, vice de Getúlio e então presidente da República, afastou-se por problemas de saúde.
Carlos Luz, presidente da Câmara dos Deputados, assumiu interinamente.
Nesse ambiente, cresceu o risco de que os vencedores das eleições não chegassem ao Palácio do Catete.
Foi quando entrou em cena o general Henrique Teixeira Lott, ministro da Guerra.
Em 11 de novembro de 1955, Lott liderou o movimento militar que ficou conhecido como Movimento de 11 de Novembro ou contragolpe preventivo.
Carlos Luz foi afastado. Nereu Ramos assumiu a Presidência.
O Congresso respaldou institucionalmente os afastamentos de Carlos Luz e, posteriormente, de Café Filho.
O objetivo declarado era assegurar a posse dos candidatos escolhidos nas urnas.
Em 31 de janeiro de 1956, Juscelino Kubitschek e João Goulart finalmente tomaram posse.
Parecia encerrada a crise.
Não estava.
A eleição de 1955 antecipava um conflito que acompanharia o Brasil durante quase uma década.
De um lado, uma corrente política com forte apoio popular, ligada ao trabalhismo, ao nacional-desenvolvimentismo e à ampliação de direitos sociais.
De outro, setores que enxergavam nesse projeto o risco de radicalização política, fortalecimento excessivo dos sindicatos e avanço da esquerda.
Jango estava no centro dessa disputa.
Em 1960, foi novamente eleito vice-presidente, desta vez na eleição vencida por Jânio Quadros.
Quando Jânio renunciou, em agosto de 1961, a Constituição determinava que o vice assumisse.
Mais uma vez tentaram impedir a posse de João Goulart.
Dessa vez, o general Lott já não estava no Ministério da Guerra.
Quem se levantou em defesa da legalidade foi Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul e cunhado de Jango.
A Campanha da Legalidade mobilizou o país.
Jango tomou posse, mas mediante uma solução de compromisso: o parlamentarismo, que reduziu seus poderes presidenciais.
Em janeiro de 1963, um plebiscito restaurou o presidencialismo por ampla maioria.
Jango recuperou os poderes previstos para o presidente da República.
Pouco mais de um ano depois, seria derrubado pelo golpe de 1964.
Vista em retrospecto, a eleição de 1955 ganha outro significado.
Talvez a pergunta mais interessante não seja apenas por que houve tanta resistência à posse de Juscelino Kubitschek.
É preciso perguntar também quanto daquela resistência estava relacionada ao homem que ocuparia a Vice-Presidência.
Porque JK venceu a Presidência.
Mas Jango mostrou nas urnas que a força política construída durante a Era Vargas sobrevivera ao próprio Getúlio.
E isso, para uma parte do Brasil de 1955, era uma notícia muito mais inquietante.
João Goulart, eleito vice-presidente, recebeu mais votos que JK.
Naquela época, presidente e vice-presidente eram escolhidos separadamente. O eleitor podia votar em candidatos de chapas diferentes.
JK recebeu 3.077.411 votos, 35,68% dos votos válidos. Jango recebeu 3.591.409, 44,25%.
Foram mais de meio milhão de votos a mais.
O número não é apenas uma curiosidade eleitoral. Ele revela a força de um projeto político que muitos imaginavam ter terminado com a morte de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954.
JK, do PSD, era um político desenvolvimentista, habilidoso e conciliador. Defendia a industrialização e a modernização acelerada do país.
Jango representava outra coisa.
Ex-ministro do Trabalho de Getúlio, presidente nacional do PTB e político com forte ligação com o movimento sindical, carregava consigo a herança do trabalhismo varguista.
Getúlio havia morrido.
O getulismo, não.
As urnas de 1955 deixaram isso evidente.
Jango recebeu quase 45% dos votos válidos para vice-presidente. Era uma demonstração extraordinária de força eleitoral.
Para setores conservadores, parte da imprensa e segmentos das Forças Armadas, aquela votação tinha um significado político que ultrapassava a figura do próprio Jango.
O trabalhismo continuava vivo. E continuava popular.
A eleição ocorreu pouco mais de um ano depois do suicídio de Getúlio, num país ainda profundamente marcado pela crise de 1954.
A oposição tentou impedir a posse de JK argumentando, entre outras coisas, que ele não havia conquistado maioria absoluta dos votos.
A Constituição de 1946, entretanto, não exigia maioria absoluta para a eleição presidencial.
A tensão aumentou depois que Café Filho, vice de Getúlio e então presidente da República, afastou-se por problemas de saúde.
Carlos Luz, presidente da Câmara dos Deputados, assumiu interinamente.
Nesse ambiente, cresceu o risco de que os vencedores das eleições não chegassem ao Palácio do Catete.
Foi quando entrou em cena o general Henrique Teixeira Lott, ministro da Guerra.
Em 11 de novembro de 1955, Lott liderou o movimento militar que ficou conhecido como Movimento de 11 de Novembro ou contragolpe preventivo.
Carlos Luz foi afastado. Nereu Ramos assumiu a Presidência.
O Congresso respaldou institucionalmente os afastamentos de Carlos Luz e, posteriormente, de Café Filho.
O objetivo declarado era assegurar a posse dos candidatos escolhidos nas urnas.
Em 31 de janeiro de 1956, Juscelino Kubitschek e João Goulart finalmente tomaram posse.
Parecia encerrada a crise.
Não estava.
A eleição de 1955 antecipava um conflito que acompanharia o Brasil durante quase uma década.
De um lado, uma corrente política com forte apoio popular, ligada ao trabalhismo, ao nacional-desenvolvimentismo e à ampliação de direitos sociais.
De outro, setores que enxergavam nesse projeto o risco de radicalização política, fortalecimento excessivo dos sindicatos e avanço da esquerda.
Jango estava no centro dessa disputa.
Em 1960, foi novamente eleito vice-presidente, desta vez na eleição vencida por Jânio Quadros.
Quando Jânio renunciou, em agosto de 1961, a Constituição determinava que o vice assumisse.
Mais uma vez tentaram impedir a posse de João Goulart.
Dessa vez, o general Lott já não estava no Ministério da Guerra.
Quem se levantou em defesa da legalidade foi Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul e cunhado de Jango.
A Campanha da Legalidade mobilizou o país.
Jango tomou posse, mas mediante uma solução de compromisso: o parlamentarismo, que reduziu seus poderes presidenciais.
Em janeiro de 1963, um plebiscito restaurou o presidencialismo por ampla maioria.
Jango recuperou os poderes previstos para o presidente da República.
Pouco mais de um ano depois, seria derrubado pelo golpe de 1964.
Vista em retrospecto, a eleição de 1955 ganha outro significado.
Talvez a pergunta mais interessante não seja apenas por que houve tanta resistência à posse de Juscelino Kubitschek.
É preciso perguntar também quanto daquela resistência estava relacionada ao homem que ocuparia a Vice-Presidência.
Porque JK venceu a Presidência.
Mas Jango mostrou nas urnas que a força política construída durante a Era Vargas sobrevivera ao próprio Getúlio.
E isso, para uma parte do Brasil de 1955, era uma notícia muito mais inquietante.
Foto (Reprodução) JK e Jango






