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Volta, Sol!

Volta, Sol!

Há mais de quinze dias o Rio parece ter esquecido de si mesmo. O céu amanhece cinza. Continua cinza. E termina cinza. Uma chuva miúda, insistente, dessas que não chegam a ser tempestade, mas também não deixam a cidade respirar. O carioca olha para cima, procura uma nesga azul e não encontra. Abre o aplicativo do tempo. Nada. Chuva. Mais chuva. Talvez chuva. E vai ficando meio triste.

Porque carioca sem sol é quase uma contradição geográfica.

A praia fica com pouca gente. As cadeiras recolhidas. O calçadão perde seus corredores, seus ciclistas, seus caminhantes. Os corpos desaparecem das areias. Os óculos escuros dormem nas gavetas. O mate não circula com a mesma alegria. Até o cachorro parece passear mais depressa, como se quisesse voltar para casa. Há uma certa apatia espalhada pela cidade.

O trânsito parece mais pesado. As pessoas falam menos. O sorriso demora. O dia começa sem começar. O relógio anda, mas o Rio parece parado. Talvez porque a gente tenha aprendido a medir o tempo pela luz. O carioca não precisa olhar o calendário. Basta olhar o céu. Sabe quando é manhã pela maneira como o sol bate no Cristo. Reconhece a hora pelo brilho nos prédios de Botafogo. Sabe que a tarde chegou quando a luz dourada se deita sobre Ipanema. E conhece o entardecer antes mesmo que o horizonte fique vermelho.

O sol é nosso relógio. Nosso despertador. Nossa decoração. Nossa fotografia. Sem ele, a Cidade Maravilhosa perde um pouco da sua cor. As montanhas ficam distantes. O mar, metálico. As fachadas, sem brilho. O verde das árvores parece mais escuro. Até o azul, essa cor tão carioca, parece ter sido levado pela chuva.

Adriana Calcanhotto percebeu isso antes de nós: “…cariocas não gostam de dias nublados”. Não gostam mesmo. Porque o Rio foi feito para a luz. Para a sombra das folhas desenhada na calçada. Para o reflexo do sol no mar. Para a pele dourada depois da praia. Para a fotografia contra o céu aberto. Para o Cristo recortado na claridade. Para o Pão de Açúcar surgindo nítido atrás da janela. O sol acende a cidade. Acende as cores. Os rostos. As montanhas. Os desejos.

Com ele, o carioca muda de humor. Sai de casa. Caminha. Pedala. Corre. Nada. Encontra amigos. Senta-se numa mesa de bar. Vai à praia mesmo que seja só para molhar os pés. Fotografa o horizonte como se fosse a primeira vez. É como se o sol devolvesse à cidade uma espécie de confiança.

Por isso, nesses quinze dias de cinza, há uma espera silenciosa espalhada pelas janelas. O carioca olha para o céu. Espera. Um pequeno azul aparece entre as nuvens. Depois outro. E, de repente, uma lâmina de luz atravessa a paisagem. Pronto! O Rio volta.

A praia respira. O mar brilha. As montanhas reaparecem. As pessoas sorriem. A cidade ganha volume, cor, movimento.

E alguém, certamente, vai dizer: “Até que enfim!”. Porque aqui, onde a beleza depende tanto da luz, o sol não é apenas uma estrela. É um estado de espírito.

Volta, sol! O Rio está com saudade de ser Rio.