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“Para Ler na Rede”: Ilhas literárias

“Para Ler na Rede”: Ilhas literárias

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“Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo”, afirmava o inglês John Donne em 1624, observando que o isolamento impede a sobrevivência e a evolução das pessoas. Já as ilhas, aquelas formações de terra cercadas de água por todos os lados, têm sido, desde a Antiguidade, a escolha preferencial na literatura para apresentar narrativas ficcionais diversas por autores que criam lugares com regras próprias, sem contato com a civilização conhecida.

Os relatos mais antigos sobre ilhas vêm tanto da Grécia – uma nação composta, basicamente, por diferentes arquipélagos – e dos países árabes. Não contente em dispor de 7 mil ilhas espalhadas pelos mares Egeu e Jônico, Homero inventou algumas ao contar as viagens de Ulisses, na “Odisseia”, entre elas as dos Ciclopes, a da feiticeira Circe, a da ninfa Calipso e a das Sereias. Já as “Mil e uma noites” destacam curiosas formações que dispensam terra ou rochas, mas que se sobressaem no mar. A ilha Roc ou Ruhk é, na verdade, um ovo do pássaro Roc. Dentro do ovo vivem filhotes da ave, disputados por caçadores que quebram a casca para retirar os passarinhos. Quem consome a carne dos pequenos Roc recupera a juventude, começando pela coloração dos cabelos. Já o romance medieval O filósofo autodidata, lançado por Ibn Tufail no século XII, trata de um personagem isolado numa ilha deserta, o que poderia ter inspirado Daniel Dafoe a compor, em 1719, o mais famoso náufrago da literatura, Robinson Crusoé.

Essas histórias são contadas por Alberto Manchel e Gianni Guadalupi no “Dicionário de lugares imaginários”, que tem cerca de dois mil verbetes, aumentando a cada nova edição – a primeira foi em 1981. Centenas dos locais são ilhas, estando entre as mais famosas o a do Tesouro, criada por Robert Louis Stevenson, Lilliput, cenário de parte das “Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift, a Terra do Nunca, onde vivem Peter Pan e os garotos perdidos, segundo James L. Barrie, a ilha da “Tempestade”, de William Shakespere, e, naturalmente, a do Robinson Crusoé.

Situar a trama em ilhas inexistentes ainda é prática na literatura.  “Mistério no Caribe”, de Agatha Christie se passa na fictícia ilha de St. Honoré.  Guillaume Musso desenvolveu a ação de “A vida secreta dos escritores” na Ilha Beaumont, que guarda semelhança com territórios franceses no Mediterrâneo.

É na costa chilena que fica a encantadora ilha onde dois gêmeos se reencontram depois de 50 anos afastados.  No delicioso “O ano em que falamos com o mar” (Pinard, R$ 69,90), de Andrés Montero, a  pandemia obriga a permanência do jornalista Jeremias em sua terra natal, a ilha esquecida pelo mundo exterior. Ali, ele retoma os hábitos da comunidade que não depende de dinheiro para adquirir produtos; o escambo substitui o comércio regular. Sem sinal de televisão ou Internet, as conversas são o principal entretenimento da pequena população.

Narrado coletivamente pelos moradores, o romance lentamente apresenta uma forma de vida quase idílica em sua simplicidade e no acolhimento aos visitantes, entre eles um refugiado político. À parte da chamada civilização, a comunidade cresce com serenidade, aceitando o recolhimento de Julian, o irmão que jamais saiu da ilha e se torna um ermitão ao enviuvar. Nas conversas, as recordações montam a história dos gêmeos, oferecendo, no lugar da tecnologia e informação imediata, a morosidade de outras épocas, quando se dizia que a pressa era inimiga da perfeição.