
Por Henrique Pinheiro – Economista e produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
Poucos apelidos da política brasileira sobreviveram tanto tempo quanto “O Corvo”. Mais de meio século após sua morte, basta mencionar a ave para que muitos brasileiros se lembrem imediatamente de Carlos Lacerda.
O apelido nasceu em 1954, no auge da crise que antecedeu o suicídio de Getúlio Vargas. Foi o jornalista Samuel Wainer, fundador do Última Hora e um dos maiores adversários de Lacerda, quem popularizou a expressão. Ao vê-lo vestido inteiramente de preto no enterro do jornalista Nestor Moreira, comparou sua figura à de um corvo, ave tradicionalmente associada ao mau agouro. Em seguida, pediu ao chargista Lan que o retratasse como a ave. A charge fez enorme sucesso e o apelido jamais o abandonou.
Mas o apelido permaneceu não apenas pela caricatura. Para seus adversários, Lacerda parecia sempre anunciar desgraças políticas. Jornalista brilhante, orador excepcional e opositor incansável, fez da imprensa uma poderosa arma de combate. Enfrentou Getúlio Vargas, combateu Juscelino Kubitschek e transformou João Goulart em um de seus principais adversários.
Sua trajetória foi marcada por paradoxos. Na juventude, militou no Partido Comunista Brasileiro. Mais tarde, tornou-se um dos maiores líderes do anticomunismo brasileiro. Sonhou em chegar à Presidência da República, mas jamais disputou uma eleição presidencial.
Apoiou o golpe militar de 1964 acreditando que ele abriria caminho para novas eleições. Poucos anos depois, rompeu com o regime ao perceber que a promessa de redemocratização não seria cumprida. Em 1966, aproximou-se justamente de dois antigos adversários, Juscelino Kubitschek e João Goulart, para criar a Frente Ampla, defendendo a restauração das liberdades políticas. O movimento foi proibido pelos militares, e Lacerda acabou cassado pelo mesmo regime que ajudara a instalar.
Meu pai, João Pinheiro Neto, ex-ministro do Trabalho de João Goulart e presidente da SUPRA, dedicou-lhe um livro inteiro, Carlos Lacerda – Um Raio sobre o Brasil, publicado em 1998. Na contracapa, definiu-o como “uma das mais fascinantes e paradoxais figuras do Brasil contemporâneo”. Talvez essa continue sendo a melhor definição.
Carlos Lacerda morreu em 1977. Sua morte também alimentou dúvidas e especulações que nunca foram definitivamente esclarecidas.
Concorde-se ou não com suas ideias, uma conclusão parece inevitável: compreender o Brasil da segunda metade do século XX exige compreender Carlos Lacerda. Poucos personagens influenciaram tanto a história política brasileira. E poucos despertaram paixões tão intensas, a favor ou contra.
Foto (desenho de Lan): Acervo da Última Hora.






