Afinal, o Banco Master é de direita ou de esquerda?
Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de Crônicas de um “Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
Talvez essa seja a pergunta errada.
A discussão sobre o Banco Master, rapidamente, virou mais um capítulo da disputa eleitoral. Procura-se saber quem é de direita, quem é de esquerda, quem conhecia quem, quem frequentou qual jantar e quem esteve próximo do banqueiro da vez.
Tudo isso deve ser investigado. Se houve irregularidades,
responsabilidades precisam ser apuradas.
Mas, tenho a impressão de que estamos novamente olhando para o varejo e esquecendo o atacado.
Enquanto o país procura saber quem participou dos convescotes e das supostas orgias romanas do banqueiro da vez, ninguém pergunta onde foram parar as reformas estruturais.
Onde está a reforma agrária?
Quem fala seriamente sobre a concentração de terras no Brasil?
Onde está a reforma urbana?
Quem discute habitação, saneamento nas favelas, educação pública em tempo integral ou o custo do dinheiro para quem produz?
E, os juros brasileiros, que atravessam governos de diferentes orientações políticas?
Esses assuntos não cabem bem numa campanha eleitoral. São difíceis, enfrentam interesses poderosos e seus resultados não aparecem antes da próxima urna.
É muito mais fácil discutir personagens. Transformamos ministros do Supremo em figuras de direita ou de esquerda dependendo da decisão que tomaram naquela semana. Alexandre de Moraes foi indicado por Michel Temer. Gilmar Mendes, por Fernando Henrique Cardoso. Flávio Dino, por Lula. André Mendonça, por Bolsonaro.
E daí? Uma indicação presidencial não transforma, automaticamente, um ministro em representante permanente da ideologia de quem o indicou.
Com os banqueiros acontece algo parecido. Daniel Vorcaro é de direita ou de esquerda? Talvez não seja essa a questão.
O dinheiro não tem partido. Os interesses, muito menos.
O agronegócio se organiza para defender seus interesses. As igrejas fazem o mesmo. O sistema financeiro também. Isso faz parte do jogo democrático.
A questão é outra: quem representa aqueles que não possuem a mesma capacidade de influência?
Meu pai pagou um preço enorme por ter participado, há mais de sessenta anos, de uma tentativa de reforma agrária.
Foi preso, cassado e carregou durante décadas a marca de ter ousado defender uma mudança na estrutura fundiária de um país profundamente desigual.
Passaram-se mais de sessenta anos.
Mudaram os presidentes, os partidos, os ministros do Supremo e os banqueiros, as manchetes e os escândalos.
E, continuamos discutindo os personagens.
Enquanto isso, a concentração da terra permanece. A reforma urbana não acontece. O saneamento continua precário em grande parte das comunidades. A escola pública em tempo integral ainda está longe de ser uma realidade para todos. E o custo do dinheiro continua sendo uma das grandes questões da economia brasileira.
É mais fácil discutir quem fumou o charuto da paz com quem.
Mais fácil ainda transformar tudo em direita contra esquerda.
Dá voto. Dá audiência. Dá engajamento.
Reformas estruturais dão trabalho.
Talvez esteja na hora de parar de olhar apenas para o banqueiro da vez.
E, voltar a discutir o Brasil.













